Barrocalvo

Quase no extremo do Concelho do Bombarral, Barrocalvo é uma das Aldeias pertencentes à Freguesia do Carvalhal, com maior número de habitantes, residentes também em vários Casais circundantes. As ruas, os fontanários, as casas de habitação, os cruzeiros, entre outras coisas dão-nos a aparência de uma aldeia tipicamente portuguesa. A origem do topónimo “Barrocalvo”, provém como o nome indica da existência de muito barro na localidade. Até ao princípio do século XX existiu uma olaria que produzia várias peças de barro que eram vendidas em feiras e mercados nos concelhos do Bombarral, Caldas da Rainha, Cadaval. O barro era extraído numa propriedade chamada Carrasqueira, situada em Barrocalvo. De realçar um grande Homem que trabalhou na olaria e que cativava todos com as suas histórias, muitas delas verdadeiros símbolos do que era a vida nesta Aldeia: era o famoso “Zé da Olaria”.

De relevante importância é a Capela de Nossa Senhora dos Prazeres, a sua arquitectura não permite tirar conclusões do ano da sua construção, várias alterações tem sofrido ao longo dos tempos, nomeadamente a talha dourada que foi retirada em 1956 e que talvez fosse vendida para Lisboa, pelo então Pároco Delgado. O sino data de 1886 logo podemos afirmar que a Capela já assumia as proporções desde então. Somente há a referência que a Imagem da Padroeira é do século XV, um seixo que pesa cerca de 90kg. Reza a história que a Imagem pertencia à Localidade da Vermelha, e em procissão veio em cima de uma carroça, ao chegar à Ermida então dedicada à Nossa Senhora da Saúde começou a chover, a Imagem entrou na Capela do Barrocalvo, quando parou de chover, o Povo preparou-se para regressar com a procissão de volta à Vermelha mas não conseguiram retirar a Imagem, o seu peso aumentou de tal forma que foi impossível removê-la. O Povo pensando que a Senhora ali queria ficar, levou então a Imagem da Senhora da Saúde para a Vermelha, alegando que era um milagre. A festa anual da Padroeira realiza-se sempre uma semana e um dia depois da Páscoa da Ressurreição de Jesus, devido a uma promessa do Povo, pois num outro ano de seca a Aldeia tinha sido invadida por uma praga de gafanhotos que destruíram as colheitas, no momento de aflição, o Povo recorreu à Senhora e prometeu que se a praga desaparecesse todos os anos realizariam a festa em honra da Senhora dos Prazeres. E, aconteceu que na segunda-feira de Pascoela, veio a chuva e levou a nuvem de gafanhotos. Então o Povo acorreu à Capela, louvou a Senhora e dando-lhe graças, proclamou-a Senhora dos Milagres e das Alegrias. A festa de Igreja desde dessa altura tem-se realizado ininterruptamente e é nessa altura que os emigrantes mais lembram a sua terra natal e por isso alguns vêm de férias. Em 1920 foi fundada a Irmandade de Nossa Senhora dos Prazeres e renovada por duas vezes, uma em 1956 e a outra em 2002 na qual foram aceites mulheres na confraria, um grande passo na mudança de mentalidades. A Catequese iniciou-se na aldeia há cerca de 60 anos e era dada uma vez por semana pelas filhas da Família Sepúlveda da Quinta dos Loridos, muitos ainda se lembrarão da D. Amélia e da Ti Rosa, grandes catequistas que levaram muitas crianças até à Comunhão Solene. Os funerais eram realizados como até hoje para o Cemitério do Santuário do Sr. Jesus e S. Pedro do Carvalhal, quem não tinha possibilidades monetárias, existia um esquife na Sacristia da Capela para transportar o falecido até ao cemitério onde era depositado na cova.

Barrocalvo tem também uma Associação Recreativa, a sua sede foi construída no centro da Aldeia há cerca de 40 anos (foi nessa altura que chegou a electricidade). Esta Associação visa sobretudo dinamizar a localidade com actividades recreativas, apostando sobretudo no convívio, e possui um campo de futebol desde 1980. Está filiada à INATEL, em tempos à FNAE (Fundação na Alegria do Trabalho), conta com um grande número de sócios. As actividades desenvolvidas são, sobretudo custeadas pelos lucros inerentes ao bar que funciona na sede da Associação, bem como das cotas dos seus associados. Há cerca de 51 anos, realizavam-se récitas, até se formar um grupo de teatro onde o drama e comédia estavam presentes, não tinham uma sala própria de ensaio era num armazém de fruta, os adereços eram alugados na Nazaré e todos os cenários eram elaborados pelos intervenientes. As primeiras actuações foram na Delgada e na Dagorda do Peral. Também eram criadas danças que por sua vez eram confundidas por meras marchas devido à composição das letras e da indumentária. A Sancheira teve o privilégio de receber este grupo que contagiava tudo e todos com a sua alegria. Sempre existiu um número elevado de crianças na Escola Primária, Feliciana era assim que se chamava a primeira Professora, e houve uma que jamais será esquecida pelos alunos que era a Professora Margarida que chegou a ter cerca de 98 crianças numa só sala de aula, esta Senhora veio de terras do Norte e acabou por ficar no Barrocalvo para sempre, tendo durante anos a transmitir de forma mágica as letras e os números. O Povo dedicava-se à sementeira de trigo, milho e centeio, vindo na altura das ceifas máquinas debulhadoras, e faziam grandes desfolhadas do milho nas respectivas eiras. O vinho e a fruta também sempre abundaram nesta aldeia. Existiam vários moinhos, onde as pessoas iam moer o seu grão para da farinha confeccionar o pão que durante anos foi a base da sua alimentação, abasteciam-se de água nos vários poços existentes e a roupa era lavada nos rios, nomeadamente no rio Figueiredo. Mais tarde foram construídos lavadores públicos com água canalizada para as pessoas utilizarem gratuitamente. A terra é sem dúvida a testemunha fundamental da Aldeia, pois só ela se lembra do passar dos anos e das gerações que sóis a sol faziam dela o dia-a-dia de suas vidas. Só ela sabe o sacrifício, o suor, o cansaço que sentiam e continuam a sentir os que a fazem produzir.

Ana Cristina Antunes

Este apontamento histórico foi gentilmente cedido por pessoas residentes na localidade, a quem quero desde já expressar o meu agradecimento muito sincero à Srª Conceição Rodrigues, à Srª Maria da Conceição Silva e ao Jovem Ângelo Vinagre.

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